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A linha 838B vivia lotada. Seus ônibus, de um amarelo e laranja inconfundível, gozavam de manutenção eficiente e circulação satisfatória, diferente da grande maioria dos carros das outras infinitas linhas rodoviárias dessa grande cidade. Talvez por esse detalhe, apesar do bom serviço, lugares sentados eram raros para quem entrava no ônibus em qualquer outro ponto senão os pontos finais.
O trajeto era longo e ligava dois bairros distantes, tanto geográfica quanto culturalmente, e por isso todo tipo de pessoa era encontrado no 838B. Patricinhas e seus iPods rosa, senhoras e suas receitas médicas, trabalhadores cansados e suados, estudantes concentrados, entre tantos outros, ajudavam a desmonotonizar a atmosfera da cidade do lado de fora do ônibus, embora, no que diz respeito a acontecimentos extraordinários, a linha era um exemplo da regra tácita do silêncio mútuo em transportes coletivos.
Mas um dia, um rapaz quebrou o protocolo.
Hermes adorava seu nome. Sentia-se um verdadeiro mensageiro, e talvez fosse essa a explicação da sua necessidade constante de falar e de se fazer escutar. Desde criança fora um menino travesso e tal característica não se foi com a puberdade. Entretanto, era sabido que Hermes possuía a capacidade de ser extremamente relevante de vez em quando, adquirindo uma fama dúbia nos seus dizeres.
Em mais um verão daqueles onde parecem ter desligado o ar-condicionado do mundo, Hermes estava mais uma vez em pé, espremido no 838B. Após um longo período de viagem, Hermes é acometido de mais um desejo espontâneo de se expressar, mas dessa vez, o desejo chegou trazendo um sorriso no canto de sua boca:
- PILOTO, se houver um carro vermelho andando devagar na sua frente, não tente ultrapassar. Espere 5 minutos mas NÃO TENTE ultrapassar, gritou Hermes, para surpresa de todos os passageiros, impressionados com a súbita e aparentemente sem razão interrupção do “silêncio” dos motores do veículo.
Tal manifestação desesperou o pobre motorista, que passou os minutos seguintes aflito, lutando internamente com o desejo de acreditar numa inesperada baboseira. Porém, a visão que se seguiu acabou com suas dúvidas. Um carro de pequeno porte, velho e arranhado marchava lentamente pela avenida. Sua cor, vejam só, vermelho. As mãos do motorista tremeram imediatamente enquanto puxavam a alavanca, reduzindo a marcha do ônibus.
Com centenas de olhos em sua direção, Hermes apenas sorria, olhando pela janela do ônibus como se nada no mundo o preocupasse. Sabia, sem dúvidas, que provocara um acontecimento que marcaria o dia das dezenas de pessoas que ali compartilhavam o mesmo transporte para suas tarefas diárias.
Passados os vaticinados 5 minutos, sendo 80% deles de pista livre para ultrapassagem, o ônibus permanecia em marcha lenta imediatamente atrás do carro vermelho, provocando um pequeno engarrafamento a partir do veículo laranja e amarelo. Os outros carros passavam buzinando, irritados, reclamando e ignorando o olhar de absoluto medo do motorista.
10 minutos, e a impaciência tomou conta dos ocupantes do veículo. Nenhum deles se atrevia a dirigir a palavra ao jovem “profeta”, que permanecia a sorrir, mas deixavam transparecer seu incômodo em leves muxoxos e bufadas significativas. Parecia que até o veículo protestava, com o som alto do esforço dos motores em permanecer em marcha lenta sem a menor necessidade.
15 minutos. Nada. Após infinitos 20 minutos, foi a vez do único capaz de reverter a situação tomar uma atitude. O motorista, após buzinar e piscar os faróis, sem resultado, resolve desobedecer o “profeta” esquisito, lançando o veículo a esquerda e iniciando a manobra de ultrapassagem.
Foram os segundos mais bonitos da vida de Hermes, que parecia inalar a apreensão e a tensão que invadiu o 838B. Ninguém o olhava, mas todos, por segundos ou por minutos, acreditaram com todas as suas convicções em suas palavras.
Concluída a manobra, a tensão se esvaiu e era possível sentir o alívio geral à quilômetros de distância. No mesmo momento, o sinal de solicitação de parada foi ativado, e Hermes, sorrindo muito, desceu do 838B sob os olhares atentos de todos.
Com apenas uma fala, Hermes estaria presente em mesas de almoço e jantar por toda a cidade. Seria esquecido em menos de 24 horas, sabia, mas não se importava. Por um dia, Hermes foi lenda. Ou quase.
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ADOREI!
Estou ansiosa pelo próximo post, espero que não demore muito. =)
Ei!!
Cade os novos posts??? Estamos esperando!!
Abs!!
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